Notícias

“Empresas precisam ser agentes ativos no processo de gestão de saúde”

10 de outubro de 2017

ASAP Entrevista: Nicolas Toth Jr., Diretor Geral da Healthways Brasil & América Latina

As organizações respondem pelo financiamento de cerca de 70% do seguro privado de saúde do país. E por serem as pagadoras, deveriam se envolver com os riscos de saúde de seus funcionários, diz o Diretor Geral da Healthways Brasil & América Latina, Nicolas Toth Jr. Em entrevista à ASAP, Toth considerou a reversão do modelo centrado na doença para o cuidado com a saúde, como uma ação iniciada pelas companhias, que deveriam ser agentes ativos no processo de gestão. “Trabalhar na doença acaba sendo uma prática focada no curto prazo”, diz. O Diretor Geral avalia que as empresas que não têm uma política adequada ou ainda não atingiram certo nível de maturidade têm uma tendência a optar pelo curto prazo e o foco permanece na doença. Já a gestão orientada para a saúde, com políticas de curto, médio e longo prazos, os resultados serão mais sustentáveis. Leia a entrevista:

ASAP – Em sua avaliação, quais seriam os entraves que impedem as empresas de obter resultados em Gestão de Saúde Populacional?
Nicolas Toth Jr – O primeiro ponto é entender o que é Gestão de Saúde Populacional. É necessário compreender quais são os riscos em saúde e bem-estar da população em foco e, a partir disso, fazer as devidas intervenções por meio de uma série de programas e ações coordenadas. Essa mudança deve ser integrada com todas as áreas, inclusive com o suporte da liderança da empresa, para que a implementação ocorra de forma contínua e, consequentemente, os riscos sejam reduzidos. Dessa forma, os benefícios, como a redução de custos em saúde e a melhora da produtividade, também serão alcançados.
Entretanto, o que nós observamos é que a maioria das empresas inicia os programas sem ter um diagnóstico correto e adequado do perfil e do risco da sua população. Diante disso, os programas parecem promissores ao serem implantados, mas não geram o resultado desejado. Em alguns casos, não há mensuração de resultados. A empresa investe e programa a ação, mas o resultado não chega a ser conhecido ou tem uma adesão muito baixa. Isso se deve à dificuldade de mensurar os resultados e os riscos, que necessitam de determinadas ferramentas e indicadores para obter uma visão ampla do ponto de vista operacional, clínico e financeiro.
Logo, o ideal é partir de um bom diagnóstico e desenvolver ações de curto, médio e longo prazos com uma análise adequada, incluindo uma visão de resultados e uma perspectiva de serem inseridas na vida dos colaboradores.

ASAP – As corporações são as financiadoras de saúde no país. Caberia a elas um “movimento” pela reversão do modelo centrado na doença para o cuidado com a saúde. O senhor concorda com a afirmação? Como, portanto, em sua avaliação, as organizações poderiam iniciar esse movimento de ruptura e mudança?
Nicolas Toth Jr – Cerca de 70% do seguro privado de saúde são planos coletivos pagos por empresas. Por serem as pagadoras e também estarem envolvidas com os riscos de saúde dos seus funcionários, as empresas precisam ser agentes ativos no processo de gestão de saúde.
Para isso, terão que buscar inteligência, ferramentas e parceiros que possam resultar em uma gestão de saúde ativa e efetiva da sua população. As empresas podem optar por fazer algumas ações internas ou buscar parceiros com o conhecimento na área. Isso pode acontecer direta ou indiretamente, envolvendo operadoras de saúde, corretoras ou consultorias de benefícios. O mais importante é que a empresa tenha um programa sólido e consistente de gestão de saúde, mas o preparo envolve também a maturidade da cultura da empresa voltada para esse tema. Não basta apenas o discurso ou a comunicação, é necessário que os colaboradores sintam que a empresa genuinamente se importa com a melhoria de sua saúde e bem-estar e tem isto dentro da sua visão estratégica. Em última análise, a organização precisa se sentir responsável em ser o agente dessa mudança.

ASAP – Como senhor avalia a importância das empresas na Gestão da Saúde Populacional?
Nicolas Toth Jr – As empresas devem ser agentes fomentadores da Gestão de Saúde Populacional, pois são direta e positivamente impactadas pela melhoria da saúde de seus colaboradores e consequente redução de custos com sinistros e mais produtividade. Vale ressaltar que, além dos seus próprios funcionários, as empresas estão direta e indiretamente relacionadas com os familiares da sua população. Então, é importante que estejam cientes que os riscos em saúde e bem-estar de toda a família irão impactá-las de alguma forma em algum momento. Por mais que o funcionário esteja bem e saudável, a saúde dos seus familiares irá impactá-lo e isso irá refletir no seu desempenho dentro da empresa.
A partir do momento que a empresa entende sua inter-relação com os familiares dos seus funcionários, ela pode trabalhar toda a questão da Gestão Populacional com uma visão diferente, mais ampla e estratégica. Assim, o resultado será muito melhor do que se ela estivesse com uma visão focada apenas na redução de curto prazo no custo-saúde ou apenas no indivíduo que está na empresa, aumentando também seu grau de eficácia na Gestão de Saúde Populacional.

ASAP – Qual sua proposta para o setor corporativo no que se refere à Gestão de Saúde Populacional, quais seriam os passos iniciais mais importantes e a  implementação de estratégias?
Nicolas Toth Jr – A proposta da Healthways é que a Gestão de Saúde Populacional seja inserida na visão estratégica da empresa, como um dos componentes para torná-la mais competitiva e levar aos resultados que almeja no curto, médio e longo prazo. Uma vez que o diferencial dentro das empresas são os funcionários, fazer uma gestão ativa de saúde e bem-estar atinge o que todos desejam: estar saudável e viver em sua plenitude.
Para os passos iniciais, nós indicamos que a empresa busque parceiros, consultoria, combine todas as suas fortalezas com o conhecimento, a ciência e as ferramentas desses parceiros, formando um núcleo consolidado para fazer um bom diagnóstico da sua população. O ideal é que ela possa segmentar sua população entre os mais saudáveis, com fatores de risco em saúde, os doentes crônicos, casos especiais e pessoas com idade acima de 60 ou 65 anos.
Para a população mais saudável, por exemplo, a Healthways possui um portal digital no qual as pessoas podem entender melhor o nível de seu bem-estar e trabalhar em áreas de foco de mais relevância para a sua situação. Este portal pode ser associado a ações promovidas pela empresa que mantêm as pessoas nesse estágio, como grupos de caminhada, apoio com nutricionista, entre outros. Para pessoas com mais riscos de saúde e bem-estar, elas podem participar de um programa mais intensivo de apoio e de mudança de comportamento, para melhorarem sua nutrição, prática de exercícios, controle do estresse etc. Para os doentes crônicos e com fatores de risco em saúde, há o Programa de Gestão de Crônicos, que também age de forma mais intensiva sobre a mudança de comportamento e o controle da condição clínica geral do participante. Já para pessoas acima de 65 anos, é indicado o Programa de Envelhecimento Saudável, que realiza um apoio diferenciado voltado para questões e riscos específicos para esta faixa etária.
Uma vez que os programas estejam implementados, o ambiente é vivo e está em constante modificação. Portanto, é importante ter as ferramentas adequadas para realizar as mensurações de satisfação, dos resultados clínicos e financeiros, para que as ações se desenvolvam cada vez mais, mantendo sua efetividade.
Especificamente sobre a adesão, vejo como uma combinação de três fatores. O primeiro é a cultura da empresa. Quanto mais a ação estiver alinhada com a estratégia da empresa e esta estiver mais madura, mais natural será a adesão dos funcionários. As pessoas se sentirão mais confortáveis em trocar informações e participar dos programas. O segundo fator é a liderança. Ela tem que estar engajada e entender a necessidade e a importância da Gestão de Saúde Populacional. Em terceiro lugar, é necessário ter bons parceiros e provedores para fazer com que as ferramentas mais adequadas sejam aplicadas.

ASAP – Como as instituições podem se organizar tendo como proposta uma Gestão de Saúde Populacional orientada para a saúde e não para a doença?
Nicolas Toth Jr – Trabalhar na doença acaba sendo uma prática focada no curto prazo. As empresas que não têm uma política adequada ou ainda não atingiram certo nível de maturidade têm uma tendência a optar pelo curto prazo e o foco permanece na doença, em que a redução do custo será imediata. Já para a gestão orientada para a saúde, o interesse será em como fazer com que as pessoas vivam em sua plenitude e tenham uma saúde melhor, o que acaba sendo uma questão de curto, médio e longo prazos, mas com resultados muito mais sustentáveis.