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O Idoso Bem Cuidado – Entrevista: Rodrigo Aguiar, Diretor de Desenvolvimento Setorial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)

5 de janeiro de 2018

O que motivou a ANS a desenvolver o Projeto Idoso Bem Cuidado?

Em primeiro lugar, a proposta do Idoso Bem Cuidado é ser um projeto longitudinal de cuidado ao idoso na saúde  suplementar. Não é um programa formatado nos moldes do que se conhece, por exemplo, como gerenciamento de crônicos. A abordagem do Idoso Bem Cuidado é mais ampla.

O Projeto nasceu do entendimento de que o setor suplementar no Brasil tem dificuldades de oferecer a estrutura de serviços necessários para um cuidado integral ao idoso e que a lógica da prestação de serviços está organizada de modo pouco adequado para atender às necessidades de saúde dessa população. Isso se deve ao fato dos serviços de saúde no Brasil estarem orientados para o atendimento de casos agudos. Infelizmente, o pronto-socorro passou a ser uma das principais portas de entrada no sistema, quando na verdade ele é um serviço de retaguarda para casos de urgência e emergência.  Pensando em todas essas questões e no envelhecimento da população, que expandirá esses problemas, foi que surgiu a ideia do Projeto Idoso Bem Cuidado.

No que consistiu o projeto?

O Projeto Idoso Bem Cuidado é um modelo inovador de atenção aos idosos. O objetivo é estimular o debate acerca do cuidado ao idoso na saúde suplementar, com foco em melhorias de qualidade e na prestação de serviço no primeiro nível, a chamada porta-de- entrada ou cuidados primários. Durante o projeto, foram apresentados modelos de cuidado dentro do espectro de experiências bem-sucedidas, seus impasses e limites, com o objetivo de contribuir para a qualidade da assistência ao idoso. O modelo de cuidado proposto pelo Projeto foi lançado em maio de 2016 e as primeiras experiências pilotos começaram em setembro/outubro de 2016.

A proposta é monitorar a saúde e não a doença, através da implementação de um modelo de cuidado mais organizado e eficiente e que foque em duas bases primordiais: a avaliação funcional e a atenção primária ao idoso. Com o modelo, a ANS espera postergar a doença e permitir que o idoso possa usufruir de sua vida com qualidade. E a melhor estratégia para um adequado cuidado do idoso é utilizar a lógica de permanente acompanhamento longitudinal da sua saúde, tê-lo sempre sob observação, variando apenas os níveis, a intensidade e o cenário da intervenção.

A ação envolve instituições parceiras e comprometidas com a investigação e a implementação de medidas na área do envelhecimento ativo, da qualidade da atenção à saúde, dos custos e gastos e da remuneração de prestadores. Ao todo, 67 projetos estão sendo desenvolvidos por 49 operadoras e 18 prestadores.

O modelo de cuidado proposto pela ANS é composto por cinco níveis de atenção: acolhimento, núcleo integrado de cuidado, ambulatório geriátrico, cuidados complexos de curta duração e cuidados de longa duração. O maior destaque está nos três primeiros níveis, ou seja, nas instâncias leves de cuidado. Isto porque o reconhecimento precoce do risco reduz o impacto das condições crônicas na funcionalidade do idoso, sendo possível monitorar a saúde, não a doença.
Confira mais informações sobre o projeto aqui:
http://www.ans.gov.br/gestao-em-saude/projeto-idoso-bem-cuidado

Como a ANS enxerga a contribuição da ASAP neste projeto?

A ASAP é uma importante parceira da ANS, tanto na divulgação do projeto entre seus associados quanto na construção da concepção técnica do projeto no âmbito do Grupo Técnico do Idoso Bem Cuidado, principalmente, no que concerne ao Modelo de Decisão no Cuidado à Saúde do Idoso. Além disso, a ASAP disponibilizou a médica geriatra e doutora em Saúde Coletiva Kylza Estrella para compor o GT.

Quais os principais resultados obtidos?

Os principais resultados do Projeto mostram que entre os participantes do grupo piloto houve melhora em indicadores de cuidado em saúde importantes, como maior acesso a médicos generalistas (clínicos, médicos de família e geriatras), bem como a equipes multiprofissionais de saúde, menos idas desnecessárias à urgência e emergência, vinculação da população participante a um gestor do seu cuidado e diminuição de internações entre idosos participantes do Projeto.

Quais as lições aprendidas?

Uma das principais lições tiradas desse trabalho em construção, que já havia sido percebida e foi confirmada ao longo do Projeto, é a importância dos primeiros níveis de atenção ao idoso. A porta de entrada dos usuários deve ser vista como referência. Para isso, precisamos que o acesso seja oportuno e que o paciente possa buscar esse referencial também no momento em que sinta a necessidade. Um sistema mais bem organizado é mais eficiente e traz melhores resultados, mudando a cultura do acesso.

Outra lição confirmada ao longo do projeto é de que a internação hospitalar pode trazer complicações para os idosos. O declínio funcional, que é a perda da capacidade física ou cognitiva para a realização das tarefas de vida diária, está entre as principais complicações na internação dos idosos. Nesse sentido, o projeto discute a necessidade de se criar um ambiente tão favorável ao cuidado que a hospitalização e as idas não necessárias à emergência e ao hospital possam ser ao máximo evitadas. Além disso, cabe lembrar que outras formas de cuidar, e que precisam ser mais desenvolvidas e estimuladas no Brasil, percorrem todo o cuidado ao idoso, desde o nível ambulatorial até hospitalar: cuidados paliativos, atenção
domiciliar e reabilitação.

De que forma o projeto contribuiu para melhorar o cuidado aos idosos?

Além de contribuir com uma organização mais bem estruturada e integrada do sistema de saúde, o Projeto tem estimulado a reorganização das redes assistenciais das operadoras e uma melhor estruturação dos primeiros níveis e cuidado aos usuários idosos, facilitando o acesso a medidas preventivas, de diagnóstico, tratamento, reabilitação e cuidados de transição, em tempo oportuno e com qualidade.

Quais os próximos passos?

Atualmente, o Projeto encontra-se em fase de transição da Fase I para a Fase II, tendo completado 12 meses em outubro deste ano. O principal diferencial da Fase II para a Fase I é que a ANS pretende expandir o Projeto no próximo ano, tendo como ponto chave atrelar aos indicadores de qualidade a implementação de modelos inovadores de remuneração no cuidado ao idoso.