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“Só prevenção não reduz custo com saúde”

6 de outubro de 2015

Mercado concentrado e cooperativo é a solução para uma eficiente gestão da saúde populacional, diz Denizar Vianna, conselheiro da ASAP

Prevenção, estratégia sobre a qual recaem todas as expectativas quando a meta é a redução de custos em saúde. No caso da população idosa, ela é a cartada final. Contudo, para que a prevenção seja de fato uma ferramenta eficaz, é preciso cuidar efetivamente de todas as faixas etárias da população, por isso a importância da Gestão da Saúde Populacional.

É um mito pensar que só a prevenção reduz custo de saúde, aliás, essa redução está cada vez mais difícil porque a saúde é uma área que demanda cada vez mais investimento.

foto_denizar_vianna_thumbA afirmação é do Conselheiro Consultivo da ASAP e Professor Associado do Departamento de Clínica Médica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Denizar Vianna, para quem a prevenção e a promoção de saúde têm de ser instituídas de forma ampla e abrangente em termos populacionais. “Prevenção com foco único em redução de custo é um equívoco”, alerta.
Na avaliação de Vianna, esperar a população envelhecer para então pensar em prevenção é um dos grandes erros dos players de saúde. Os idosos, diz ele, precisam estar funcionalmente aptos, com mobilidade e socialmente inseridos e, dessa forma, a prevenção e a promoção de saúde devem começar muito antes, quanto mais cedo melhor. “Prevenção para indivíduos com setenta ou setenta e cinco anos, com foco em redução de custos, não vai funcionar”.

A grande questão e das mais importantes é: vamos investir em ações que promovam grandes ganhos de saúde e de qualidade de vida? Para isso é preciso olhar para a população como um todo.

Ressalta o Conselheiro da ASAP que, se não houver prevenção de forma ampla, os custos futuros serão mais altos e os resultados em saúde, pífios.

O que fará a diferença em redução de custos e gestão eficiente será uma abordagem de promoção de saúde que abranja cada estrato e defina o que é importante para cada grupo da população.

Questionado sobre os incipientes programas de prevenção para as populações mais jovens – os maus hábitos alimentares, o consumo de álcool, o uso de drogas e o sexo desprotegido são ações do presente que estão a armar uma bomba que explodirá no futuro, no colo dos sistemas de saúde público e privado -, o professor da UFRJ é enfático:

Falta no Brasil uma visão de formulação de políticas de saúde. E como se faz isso? Primeiro é preciso conhecer a população, como ela está dimensionada em termos de estrato, quais fatores de risco incidem em cada fase da vida, para então definir as estratégias para intervenção nas populações. O gestor e o operador do plano de saúde têm de conhecer a sua população para formular políticas. Há operadores de planos de saúde que cuidam de quase seis milhões de beneficiários e para serem eficientes tem de haver medidas. O que está faltando são formulações de políticas de saúde.

Solução: Mercado consolidado e com investimento em prevenção

Medidas para alcançar resultados de curto prazo, como intensificar programas de prevenção entre as populações que mais consomem recursos – crônicos, obesos e idosos – é um erro em gestão de saúde que se perpetua no país, avalia Vianna. Ele explica que, as operadoras de planos de saúde trabalham com rotatividade na casa dos 30% do total da carteira, com populações migrando de um plano para outro. Esse é o motivo pelo qual as operadoras não se empenham em promover programas de prevenção nessas populações porque sabem que estas migrarão para o concorrente.

Esse é um pensamento viciado, porque se pensarmos no sistema como um todo e cada vez mais consolidado, concentrado em um número menor de operadoras, se cada um fizer o seu trabalho, o seu dever de casa, o resultado será um sistema mais saudável, pois mesmo que haja migração para o concorrente, quem recebe o outro percentual também atuará com uma população que passou por programas de prevenção. Há falta de ações nesse sentido porque a visão é apenas de curto prazo que hoje não mais se sustenta.

Além da visão de curto prazo, outra variável que impede uma gestão eficaz da saúde populacional é a falta de informação do real perfil de risco dos indivíduos. O cenário ideal, ressalta Vianna, é mapear os sedentários, fumantes, obesos, crônicos, e investir em sistemas de informação. “Algumas operadoras já perceberam que informação é vital para a Gestão da Saúde Populacional”.

Obesidade: epidemia do século XXI, responsabilidade do Estado

As empresas oferecem programas de promoção de saúde, com foco na prevenção. E fora da organização, as populações encontram condições de se manterem saudáveis? A obesidade é uma realidade no século XXI e o seu combate depende de vários atores, afirma Vianna.

O Estado tem de subsidiar a alimentação saudável, como faz o México que está taxando refrigerantes porque tem um percentual de obesidade maior do que os Estados Unidos. O governo tem de assumir o papel de regulador, como fez com o tabaco, lançando campanhas antitabagismo nos anos 80 e conseguindo com que o percentual de 30% de prevalência caísse para 12%, porque taxou o produto e criou ambientes proibitivos. Isso é ação governamental, é regulação e tem de ser feito o mesmo no setor de alimentos. É claro que o lobby é pesado, mas a sociedade civil tem de se mobilizar também.