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Tendências de modelos assistenciais: desafios de tecnologia, recursos humanos e gestão.

26 de junho de 2018

 

Os novos modelos assistenciais devem sempre focar no indivíduo, com entrega de valor baseada na atenção à sua saúde.

A tecnologia é o meio para colocar os modelos assistenciais em prática, mas a interoperatividade tecnológica, somado aos desafios de recursos humanos e de gestão dessa nova forma de se “entregar saúde”, são os desafios dos próximos anos no Brasil e no mundo.

Um rápido olhar sobre o histórico desses modelos no Brasil mostra que apesar de algumas iniciativas contrárias, o modelo assistencial predominante no Brasil é hospitalocêntrico, ou seja, voltado para a assistência à doença em seus aspectos individuais e biológicos, tornando o cuidado mais caro e imprevisível, com ênfase em exames laboratoriais, e de imagens, e realização de procedimentos de qualquer complexidade em instalações terciárias.

Então, como implantar novos modelos de atenção à saúde que premiem a atenção primária? É exatamente nesse ponto que a Presidente do Conselho Diretor da ASAP, Dra. Ana Elisa Siqueira, também CEO do Grupo Santa Celina, vê o maior gargalo quando o assunto é tendências de modelos assistências em saúde – tema que foi discutido também pelo Dr. Gustavo Gusso, CMO da Amparo Saúde, com mediação do Diretor Técnico da ASAP, Ricardo Ramos, Vice-Presidente de Negócios da Funcional Health Management.

Para a Dra. Ana, sem colocar o beneficiário dentro de uma rede de cuidados, as várias tecnologias desenvolvidas e aplicadas no setor não darão conta de preencher, por si só, todas as lacunas. “Acho que a maior mudança seria a compreensão, por parte do usuário, de que ele deve sair do ‘shopping center’ da saúde, onde compra qualquer coisa a qualquer hora, para entrar num sistema de cuidado. E toda a cadeia de saúde deve estar envolvida nisso”.

Recursos avançados – e necessários – como as técnicas de machine learning, data analytics e análise preditivas – são, em sua visão, “meios que também podem vir como uma parte da solução”. No entanto, desde que se entenda que apenas elas não farão com que o modelo mude. “É importante deixar claro que todas as iniciativas são válidas, todas têm o seu papel dentro da cadeia da saúde, mas enquanto elas não se conversarem, a gente não vai conseguir chegar a lugar nenhum”.

O Dr. Gustavo Gusso complementa com outro ponto que considera fundamental: a profissionalização da seleção dos cargos mais importantes dentro da cadeia da saúde. “No Brasil, uma coisa que a gente faz muito mal é a contratualização dos serviços”, afirma. O médico cita como exemplo o que ocorre na Inglaterra entre profissionais de saúde e o governo. Lá, os contratos com os médicos miram-se em décadas de experiências no setor antes de serem redigidos, garantindo assim maior cobertura e evitando pontos obscuros que possam comprometer o dia o dia das atividades. “O contrato de um médico de família com o governo, na Inglaterra, tem 200 páginas. E essas 200 páginas não se fazem do dia para a noite, elas foram construídas ao longo de 60 anos. Aqui, qual o contrato do governo brasileiro para as OSs? Qual o contrato do governo com o médico?”

Gusso finaliza dizendo que as mudanças necessárias para se chegar a um modelo assistencial mais eficiente, humano e sustentável, precisam passar por esse olhar mais cuidadoso aos vínculos legais que ligam profissionais a governos e empresas. “Quando os ingleses falam que estão reformando o sistema de saúde, na prática eles estão mudando o contrato. Aqui a gente nem sabe o que significa isso. No máximo temos uma Portaria de cinco linhas. E não tem como isso fazer o sistema de saúde funcionar”.

foto materia análise - Carla Gullo

Ana Elisa Siqueira, Presidente do Conselho Diretor da ASAP, Ricardo Ramos, Diretor Técnico da ASAP e Gustavo Gusso, CMO da Amparo Saúde